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terça-feira, 25 de setembro de 2018

Urgentemente

"Urgentemente
É urgente o amor 
É urgente um barco no mar 

É urgente destruir certas palavras, 
ódio, solidão e crueldade, 
alguns lamentos, muitas espadas. 

É urgente inventar alegria, 
multiplicar os beijos, as searas, 
é urgente descobrir rosas e rios 
e manhãs claras. 

Cai o silêncio nos ombros e a luz 
impura, até doer. 
É urgente o amor, é urgente 
permanecer."


Eugénio de Andrade

quarta-feira, 30 de maio de 2018

Faz de Conta

"Faz de conta que sou abelha.
– Eu serei a flor mais bela.

– Faz de conta que sou cardo.
– Eu serei somente orvalho.

– Faz de conta que sou potro.
– Eu serei sombra em agosto.

– Faz de conta que sou choupo.
– Eu serei pássaro louco, pássaro voando
e voando sobre ti vezes sem conta.

– Faz de conta, faz de conta."

Eugénio de Andrade

domingo, 28 de fevereiro de 2016

As Palavras Interditas

"Os navios existem, e existe o teu rosto
encostado ao rosto dos navios.
Sem nenhum destino flutuam nas cidades,
partem no vento, regressam nos rios.

Na areia branca, onde o tempo começa,
uma criança passa de costas para o mar.
Anoitece. Não há dúvida, anoitece.
É preciso partir, é preciso ficar.

Os hospitais cobrem-se de cinza.
Ondas de sombra quebram nas esquinas.
Amo-te... E entram pela janela
as primeiras luzes das colinas.

As palavras que te envio são interditas
até, meu amor, pelo halo das searas;
se alguma regressasse, nem já reconhecia
o teu nome nas suas curvas claras.

Dói-me esta água, este ar que se respira,
dói-me esta solidão de pedra escura,
estas mãos nocturnas onde aperto
os meus dias quebrados na cintura.

E a noite cresce apaixonadamente.
Nas suas margens nuas, desoladas,
cada homem tem apenas para dar
um horizonte de cidades bombardeadas. "


Eugénio de Andrade

domingo, 24 de novembro de 2013

Hoje Deitei-me Ao Lado Da Minha Solidão

"Hoje deitei-me ao lado da minha solidão.
O seu corpo perfeito, linha a linha,
derramava-se no meu, e eu sentia
nele o pulsar do próprio coração.

Moreno, era a forma das pedras e das luas.
Dentro de mim alguma coisa ardia:
a brancura das palavras maduras
ou o medo de perder quem me perdia.

Hoje deitei-me ao lado da minha solidão
e longamente bebi os horizontes.
E longamente fiquei até sentir
o meu sangue jorrar nas próprias fontes."


Eugénio de Andrade

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Adeus

"Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mão à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras
e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro!
Era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.

Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes!
e eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos,
no tempo em que o teu corpo era um aquário,
no tempo em que os meus olhos
eram peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor...,
já se não passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.
Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus."


Eugénio de Andrade

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Nada

"Nada, nem sequer o verão
Está completo. Menos ainda o colar
De sílabas que, desvelado,
Te ponho à roda da cintura.
Nunca me pediste mais, nunca
Te dei outra coisa.
Quando juntamos as mãos esquecemos
Que somos culpados da nossa inocência.
E sorrimos, alheios
Ao sol que declina, à estrela
Do norte que sabemos no fim.
O privilégio da vida é este
Silêncio musical que do teu olhar
Cai nos meus olhos
E regressa a ti acrescentado
Pela luz da manhã varrendo o mar."


Eugénio de Andrade

Contraponto

"Oiço-a ainda longe, a neve.
Vai chegar um dia com a luz de novembro,
Antes passará pelos teus lábios.
E serás condescendente,
A ponto de lhe indicares o caminho
Mais longo,
O que leva ao bosque onde
Te peguei na mão
Sem coragem para a levar à boca.
A neve tem esse lado acolhedor
De farol no escuro.
Antes de nos soterrar o coração."


Eugénio de Andrade

Num Exemplar Das Geórgicas

"Os livros. A sua cálida,
Eterna, serena pele. Amorosa
Companhia. Dispostos sempre
A partilhar o sol
Das suas águas. Tão dóceis,
Tão calados, tão leais.
Tão luminosos na sua
Branca e vegetal e cerrada
Melancolia. Amados
Como nenhuns outros companheiros
De alma. Tão musicais
No fluvial e transbordante
Ardor de cada dia."


Eugénio de Andrade

Casa Do Mundo

"A diminuta
Flor da candeia,
Na mesa o pão o vinho
A rosa,
A súbita
Brancura da cama aberta -
A eternidade
Milimetricamente
A dividir contigo."


Eugénio de Andrade

domingo, 29 de julho de 2012

Despedida

"Junho chegara ao fim, a magoada
Luz dos jacarandás, que me pousava
Nos ombros, era agora o que tinha
Para repartir contigo,
E um coração desmantelado
Que só aos gatos servirá de abrigo."


Eugénio de Andrade

Contigo

"Sou eu, sou eu que não durmo,
Contigo nos sentidos.
Sinto-me caminhar sobre as águas
Do meu corpo - não sejas queimadura
Nem boca do deserto.
Nenhum amor é estéril, um filho
Pode ser uma estrela ou um verso."


Eugénio de Andrade

Sem Memória

"Haverá para os dias sem memória
Outro nome que não seja morte?
Morte das coisas limpas, leves:
Manhã rente às colinas,
A luz do corpo levada aos lábios,
Os primeiros lilases do jardim.
Haverá outro nome para o lugar
Onde não há lembrança de ti?"


Eugénio de Andrade

O Desejo

"O desejo, o aéreo e luminoso
E magoado desejo latia ainda;
Não sei bem em que lugar
Do corpo em declínio mas latia;
Bastava abrir os olhos para ouvir
O nasalado ardor da sua voz:
Era a manhã trepando às dunas,
Era o céu de cal onde o sul começa,
Era por fim o mar à porta - o mar,
O mar, pois só o mar cantava assim."


Eugénio de Andrade

Sem Ti

"É um fardo aos ombros
O corpo, sem ti.
Até o amarelo
Dos girassóis se tornou cruel.
Não invento nada,
Na arte de olhar
A luz é cúmplice da pele."


Eugénio de Andrade

Mesmo Em Ruína

"É tão antiga a chuva na vidraça.
Vem do pequeno bosque onde o verão
Mordia os flancos da água.
O que no coração tarda
A morrer é a luz mesmo em ruína.
A sumptuosa seda do outono.
A doçura, o sal da língua."


Eugénio de Andrade

Sobre A Terra

"Sei que estou vivo e cresço sobre a terra.
Não porque tenha mais poder,
Nem mais saber, nem mais haver.
Como lábio que suplica outro lábio,
Como pequena e branca chama
De silêncio,
Como sopro obscuro do primeiro crepúsculo,
Sei que estou vivo, vivo
Sobre o teu peito, sobre os teus flancos,
E cresço para ti."


Eugénio de Andrade

A Sereia Do Báltico


"Ao fundo de cada uma destas linhas espreita um gato.
Tenho nove anos e vivo no Rossio. Vou amachucando cuidadosamente uma folha de jornal até fazer dela uma bola, passo-lhe à roda um cordel, dou-lhes três ou quatro voltas apertadas, e acabo por deixar uma longa ponta de quase dois metros. É com esta arma no bolso que saio à rua, e raro é o dia em que não regresso com um gato. Não é difícil: 
atiro a bola ao primeiro bicho que descubro e vou puxando o fio. Nenhum resiste. O gato pula, corre atrás da bola, nunca mais pára até que chegamos a casa; então aos mais pequenos, é preciso ajudá-los nas escadas.
Às vezes, minha mãe dá-lhes um pouco de leite, e leva-os depois; outras, se está maldisposta, obriga-me a ir pô-los no sítio onde os encontrei. Não sei como o Bibi escapou. Teria a mãe sido cativada pela sua beleza - era um pequeno tigre de grandes olhos cor de bronze - eu pensaria que, se eu tivesse um gato, perderia aquela mania de trazer para casa todo o maltrapilho? Não sei, a verdade é que foi ficando, e se a relação dele com a mãe nos primeiros tempos não foi feliz, comigo poderia falar-se em idílio: era eu que lhe dava de comer, dormia aos meus pés, conhecia o meu toque de campaínha e, embora tivesse garras e dentes bem afiados, nunca ninguém me viu mordido ou arranhado.
Cresceu muito, e era elegante de seu natural, a cabeça levantada, atenta, como se escutasse qualquer rumor distante.
E não sei de quem melhor soubesse administrar o silêncio.
É preciso dizer que o bicho chegara a casa com maus hábitos. A mãe pusera-lhe um caixote com serradura a um canto da casa de banho para as suas necessidades, mas ele preferia fazê-las na banheira e até no lavatório,
justamente sobre o ralo. Quando ouvia a mãe dizer: "Raios partam o gato!", já sabia o que, mais uma vez, acontecera. Procurava-o a seguir no meu quarto (já disse, creio eu, que o Bibi passava o tempo deitado na minha cama), e levava-o à força com ela. Entre injúrias e palmadas, ouvia o gato bufar e miar, até conseguir escapar-se e meter-se debaixo da minha cama, depois de alguma arranhadela, pois o castigo humilhava-o: a mãe esfregava-lhe invariavelmente o focinho na porcaria que ele depusera, talvez como oferenda, na banheira ou no lavatório. Depois aproximava-se de mim, fazia-me queixa: "Se não gostasse tanto dele, já teria tido o destino dos outros". Eu olhava-lhe a mão arranhada, pegava nela, fazia-lhe uma festa. "Ele também é louco por ti, mas é um porcalhão", insistia. Faço-lhe uma festa, ela sorri, e depois vai à sua vida. Era a minha vez de procurar o Bibi, que se encontrava ainda debaixo da cama: "Vem cá, meu porcalhãozito, ela já se foi embora, já não te bate mais. Anda aqui, minha sereia do Báltico: não há maneira de teres juízo, dá cá a pata". Demorava um pouco a sair, mas depois lá vinha, acabando por dar uma turrinha na mão que o procurava no escuro, consentia que o pusesse no colo, lhe fizesse alguns mimos. Não tardava a correr atrás de mim, por aquele corredor que nunca mais acabava, nunca mais acabava."


Eugénio de Andrade

Fábula


"Estavam ali diante dos meus olhos: era terrível e ao mesmo tempo fascinante.
Ao princípio pensei que ele a estava a matar, logo a seguir percebi que não, que talvez ambos estivessem a morrer, só depois qualquer apelo distante se fez carne em mim. Então todo eu fiquei amarrado aos seus gestos, àquela respiração fatigada e difícil, àquele balbucio que lhes saía ralo da boca.
Os seios de Maria caíam nus da blusa. Uma das mãos do carpinteiro perdia-se nos seus cabelos emaranhados, a outra parecia ter-se enterrado na areia. O resto era aquele corpo todo de homem: rígido e fremente ao mesmo tempo, à força de concentrar todo o ímpeto nas nádegas, arco de onde a flecha partia, para se cravar exasperada nas entranhas da rapariga. Parecia um cavalo ofegante – os olhos cerrados, o suor escorrendo da raiz dos cabelos, espalhando-se pelas costas, pelos flancos, pelas pernas, quase todas descobertas. Um cavalo cego mordendo o céu branco de agosto. Mas a terra chamou-o, e um relincho prolongado encheu o leito do ribeiro, morreu no alto dos amieiros. Por fim, a paz desceu ao mundo.
Maria olhava o carpinteiro com olhos rasos de espanto, como quem tivesse perdido tudo naquele instante. Lentamente passou-lhe a mão pelo cabelo, numa carícia tímida, e começou a chorar. O carpinteiro olhou-a também, mas os seus olhos eram diferentes, eram os olhos da própria solidão.
Sem uma palavra, o homem ergueu-se e começou a mijar. A rapariga levantou-se a seguir e, de costas, parecia limpar as pernas. Eu escondi-me melhor atrás dos amieiros, não vi mais nada. Senti os passos de ambos afastarem-se, cada um para seu lado, com o coração apertado. De um salto, atirei-me à cama que os seus corpos haviam feito na areia, respirando avidamente, como se o ar pudesse trazer-me mais do que o cheiro acidulado da urina, e deixei de perceber os passos já distanciados, o estalar dos ramos secos aqui e ali, para só ouvir o silêncio. O doloroso, insuportável silêncio."


Eugénio de Andrade

Corpo

"O mar - sempre que toco
Um corpo é o mar que sinto
Onda a onda
Contra a palma da mão.
Vésper está agora
Tão próxima que já não posso
Perder-me naquela infatigável
Ondulação."


Eugénio de Andrade

Os Pêssegos

"Lembram adolescentes nus:
A doirada pele das nádegas
Com marcas de carmim, a penugem
Leve, mais encrespada e fulva
Em torno do sexo distendido
E fácil, vulnerável aos desejos
De quem só o contempla e não ousa
Aproximar dos flancos matinais
A crepuscular lentidão dos dedos."


Eugénio de Andrade