"Quando partires de regresso a Ítaca,
deves orar por uma viagem longa,
plena de aventuras e de experiências.
Ciclopes, Lestregónios, e mais monstros,
um Poseidon irado – não os temas,
jamais encontrarás tais coisas no caminho,
se o teu pensar for puro, e se um sentir sublime
teu corpo toca e o espírito te habita.
Ciclopes, Lestregónios, e outros monstros,
Poseidon em fúria – nunca encontrarás,
se não é na tua alma que os transportes,
ou ela os não erguer perante ti.
Deves orar por uma viagem longa.
Que sejam muitas as manhãs de Verão,
quando, com que prazer, com que deleite,
entrares em portos jamais antes vistos!
Em colónias fenícias deverás deter-te
para comprar mercadorias raras:
coral e madrepérola, âmbar e marfim,
e perfumes subtis de toda a espécie:
compra desses perfumes quanto possas.
E vai ver as cidades do Egipto,
para aprenderes com os que sabem muito.
Terás sempre Ítaca no teu espírito,
que lá chegar é o teu destino último.
Mas não te apresses nunca na viagem.
É melhor que ela dure muitos anos,
que sejas velho já ao ancorar na ilha,
rico do que foi teu pelo caminho,
e sem esperar que Ítaca te dê riquezas.
Ítaca deu-te essa viagem esplêndida.
Sem Ítaca, não terias partido.
Mas Ítaca não tem mais nada para dar-te.
Por pobre que a descubras, Ítaca não te traiu.
Sábio como és agora, senhor de tanta experiência,
terás compreendido o sentido de Ítaca."
Konstandinos Kavafis
terça-feira, 6 de agosto de 2013
segunda-feira, 5 de agosto de 2013
E Ela Dança
"Às vezes, quando a casa estava adormecida à noite, ela dançava pela sala fora, tal qual
como escreveu («bailarina fui mas nunca bailei»). Às vezes, convencia-se que havia ladrões
em casa e acordava-me do sono para espreitar debaixo da minha cama, e às vezes havia
ladrões a sério, com cara de assassinos e crachá da PIDE, que chegavam pela alvorada do
dia, mas verdadeiramente ela não tinha medo dos ladrões nem dos esbirros do «velho
abutre»: só tinha medo de fantasmas.
Naquela casa, aprendemos cedo duas coisas sobre a poesia. A primeira, era que os
poetas eram todos uns personagens extraordinários, que apareciam a horas imprevistas e
diziam coisas surpreendentes. De todos, o mais fantástico era o Ruy Cinatti, que nos
convenceu que era o nosso irmão mais velho, regressado de outra vida em Timor e que
esteve à beira de conseguir transformar-nos em guerrilheiros contra a precária disciplina
familiar.
Vinham e iam constantemente poetas tristes ou alegres, cerimoniosos ou
tumultuosos e até um, o Ruy Belo, que me levava à Luz ver o Benfica e jogava futebol
comigo no jardim.
A segunda coisa sobre poesia que aprendemos é que a poesia é para ser dita e para
ser escutada: é oral, não cabe nos livros. Eu não sabia nada de aritmética, nem de botânica
ou de mineralogia mas, aos dez anos, já tinha aprendido, de ouvido, a recitar sonetos de
Shakespeare em inglês do século XVI, ou o «Erl Kõnig», do Goethe, em alemão. E
quando ela trouxe para casa um disco com poemas do Lorca recitados em espanhol pela
Germaine Montero, ouvi-o tantas, tantas vezes, que fiquei a saber de cor o imenso «Llanto
por Ignácio Sanchez Mejia». À mesa, entre a sopa e o prato principal, dentro de um
automóvel a caminho do sul ou na missa das 7 da tarde na Igreja da Graça, de repente ela
começava a recitar poesia com a mesma naturalidade com que os outros falavam de coisas
triviais ou respondiam em latim ao «orate, frates!» do padre. Às vezes, naquele terror que as
crianças têm que os pais pareçam estranhos em público, apetecia enfiarmo-nos pelo chão
abaixo quando, à mesa de um café no Chiado, ou numa loja, em plenas compras de Natal,
ou caminhando connosco pela rua de mãos dadas (por vezes, distraída, perdia-nos), ela
começava a recitar poesia em voz alta, como se o mundo inteiro à sua volta lhe fosse de
repente absolutamente alheio. Um dia, no eléctrico a caminho de casa, ela fixou-se num
letreiro, por cima de uma janela, que rezava assim: «se alguma janela o incomoda, peça ao
condutor que a feche». E então, no meio daquele silêncio envergonhado dos passageiros,
que fingem não ver e não se ouvir uns aos outros, ecoou a voz dela, clara e silabada,
recitando um poema: «se alguma janela o incomoda, peça ao condutor que a feche e que
nunca mais a abra.»
A mim, todavia, ensinou-me o mais importante de tudo: ensinou-me a olhar.
Ensinou-me a olhar para as coisas e para as pessoas, ensinou-me a olhar para o tempo, para a noite, para as manhãs. Ensinou-me a abrir os olhos no mar, debaixo de água, para
perceber a consistência das rochas, das algas, da areia, de cada gota de água. Ensinou-me a
olhar longamente, eternamente, cada pedra da Piazza Navone, em Roma, sentados num
café, escutando o silêncio da passagem do tempo. Fez-me mergulhador e viajante, ensinou-me que só o olhar não mente e que todo o real é verdadeiro. Quem ler com atenção, verá que esta é a moral que atravessa toda a sua escrita.
A outra lição decisiva foi a da liberdade. Não só a liberdade física, não só a liberdade
na luta pela justiça, «num sítio tão imperfeito como o mundo», mas ainda a liberdade na
busca de um caminho próprio onde as coisas tenham uma ética e façam sentido e, acima de tudo, a liberdade da nossa própria solidão. Prémios, condecorações, homenagens, são-lhe de tal forma alheios que ninguém mais o entende. Dêem-lhe, sim, silêncio e tempo, manhãs como a «manhã da praça de Lagos» e noites com «jardins invadidos de luar». E ela dançará.
Ao longo das sílabas dos poemas, como dançava na minha infância."
Miguel Sousa Tavares
sexta-feira, 2 de agosto de 2013
terça-feira, 23 de julho de 2013
"Não é a verdade que é sagrada, mas a procura da nossa própria verdade! Haverá acto mais sagrado do que a auto-inquirição? A minha obra filosófica, dizem alguns, está construída sobre areia: os meus pontos de vista mudam constantemente. Mas uma das minhas máximas é: transforma-te em quem és. E como descobrir quem e o que se é sem a verdade?"
"Conheci muitas pessoas que não gostam de si mesmas e tentam superar isso persuadindo primeiro os outros a pensarem bem delas. Feito isso, começam a pensar bem de si próprias. Mas essa é uma falsa solução, trata-se de uma submissão à autoridade dos outros. A sua tarefa é aceitar-se a si próprio, e não encontrar formas de obter a minha aceitação."
"Olhe mais profundamente e verá que o desejo sexual também é um desejo de domínio sobre todos os outros. O "amante" não é alguém que ama: pelo contrário, almeja a posse exclusiva da amada. O seu desejo é excluir o mundo inteiro de um certo bem precioso. É tão egoísta como o dragão que guarda o tesouro! Não ama o mundo; pelo contrário, é totalmente indiferente às outras criaturas vivas."
"Primeiro tenho de o ensinar a andar, e o primeiro passo para aprender a andar é entender que quem não obedece a si mesmo é regido pelos outros. É mais fácil, muito mais fácil, obedecer a outro do que comandar-se a si mesmo."
"Agora precisa de aprender a reconhecer a sua vida e a ter coragem de dizer "Foi assim que escolhi!" O espírito de um homem constrói-se a partir das suas escolhas."
"Nos últimos dias, apercebi-me de que a cura filosófica consiste em aprender a escutar a sua própria voz interior."
"Chama ferida à visão clara? Veja o que aprendeu Josef: que o tempo não se pode parar, que a vontade não tem poder para querer no passado. Apenas os afortunados captam tais verdades."
"Haverá uma receita para enrijecer a determinação? Chegou à percepção de que somos regidos, não pelo desejo divino, mas pelo desejo do tempo. Percebe que a vontade é importante contra o "assim aconteceu". Terei capacidade de lhe ensinar a transformar o "assim aconteceu" no "assim o quis"?
"Uma perspectiva cósmica atenua sempre uma tragédia. Se subirmos bastante, atingiremos uma altura da qual a tragédia deixará de parecer trágica."
"Muitas vezes, quando fico acordado de noite, com medo de morrer, recito para mim a máxima de Lucrécio: "onde está a morte não estou eu, onde estou eu não está a morte". Eis uma verdade com uma racionalidade suprema e irrefutável. Porém, quando estou verdadeiramente assustado, ela nunca funciona, nunca acalma os meus temores. Essa é a falha da filosofia. Ensinar filosofia e aplicá-la na vida real, são empreendimentos bastante diferentes."
"Amamos mais o desejo do que o ser desejado."
"Ambos acreditamos que Deus está morto. Ele conclui que uma vida sem Deus não faz sentido e é tamanho o seu tormento que o seduz a ideia do suicídio: por causa das dúvidas traz sempre consigo um frasco de veneno pendurado ao pescoço. Para mim, porém, a ausência de Deus é motivo de regozijo. Eu exulto a minha liberdade. Digo a mim mesmo: "O que haveria para criar se os Deuses existissem?" Percebeu o que quero dizer? A mesma situação, os mesmos dados dos sentidos... mas duas realidades!"
"O tempo não pode ser interrompido. É esse o nosso fardo mais pesado. O nosso maior desafio é viver, a despeito desse fardo."
"...conhece a expressão de Montaigne sobre a morte em que nos aconselha a viver num quarto com vista para um cemitério? Aclara a nossa mente - alega - e mantém as prioridades da vida em perspectiva."
"O paradoxo, o seu paradoxo, é que você se dedica à busca da verdade, mas não consegue suportar a visão da sua descoberta."
"Viva enquanto viver! A morte perde o seu terror quando se morre depois de consumida a própria vida! Caso não se viva no tempo certo, então nunca se conseguirá morrer no momento certo."
"O tiquetaque do seu coração marca o tempo que se esvai. A avidez do tempo é eterna. O tempo devora e devora, sem dar nada em troca. Que terrível ouvi-lo dizer que viveu a vida que lhe foi atribuída! E que terrível encarar a morte sem nunca ter reivindicado a liberdade, mesmo em todo o seu perigo."
"Para se relacionar plenamente com outro, precisa primeiro de se relacionar consigo mesmo. Se não conseguimos abraçar a nossa própria solidão, usaremos simplesmente o outro como um escudo contra o isolamento. Só quando se consegue viver como a águia, sem absolutamente qualquer público, se consegue voltar para outra pessoa com amor; só então se é capaz de preocupar com o engrandecimento do outro ser humano."
Irvin D. Yalom em Quando Nietzsche Chorou
"Conheci muitas pessoas que não gostam de si mesmas e tentam superar isso persuadindo primeiro os outros a pensarem bem delas. Feito isso, começam a pensar bem de si próprias. Mas essa é uma falsa solução, trata-se de uma submissão à autoridade dos outros. A sua tarefa é aceitar-se a si próprio, e não encontrar formas de obter a minha aceitação."
"Olhe mais profundamente e verá que o desejo sexual também é um desejo de domínio sobre todos os outros. O "amante" não é alguém que ama: pelo contrário, almeja a posse exclusiva da amada. O seu desejo é excluir o mundo inteiro de um certo bem precioso. É tão egoísta como o dragão que guarda o tesouro! Não ama o mundo; pelo contrário, é totalmente indiferente às outras criaturas vivas."
"Primeiro tenho de o ensinar a andar, e o primeiro passo para aprender a andar é entender que quem não obedece a si mesmo é regido pelos outros. É mais fácil, muito mais fácil, obedecer a outro do que comandar-se a si mesmo."
"Agora precisa de aprender a reconhecer a sua vida e a ter coragem de dizer "Foi assim que escolhi!" O espírito de um homem constrói-se a partir das suas escolhas."
"Nos últimos dias, apercebi-me de que a cura filosófica consiste em aprender a escutar a sua própria voz interior."
"Chama ferida à visão clara? Veja o que aprendeu Josef: que o tempo não se pode parar, que a vontade não tem poder para querer no passado. Apenas os afortunados captam tais verdades."
"Haverá uma receita para enrijecer a determinação? Chegou à percepção de que somos regidos, não pelo desejo divino, mas pelo desejo do tempo. Percebe que a vontade é importante contra o "assim aconteceu". Terei capacidade de lhe ensinar a transformar o "assim aconteceu" no "assim o quis"?
"Uma perspectiva cósmica atenua sempre uma tragédia. Se subirmos bastante, atingiremos uma altura da qual a tragédia deixará de parecer trágica."
"Muitas vezes, quando fico acordado de noite, com medo de morrer, recito para mim a máxima de Lucrécio: "onde está a morte não estou eu, onde estou eu não está a morte". Eis uma verdade com uma racionalidade suprema e irrefutável. Porém, quando estou verdadeiramente assustado, ela nunca funciona, nunca acalma os meus temores. Essa é a falha da filosofia. Ensinar filosofia e aplicá-la na vida real, são empreendimentos bastante diferentes."
"Amamos mais o desejo do que o ser desejado."
"Ambos acreditamos que Deus está morto. Ele conclui que uma vida sem Deus não faz sentido e é tamanho o seu tormento que o seduz a ideia do suicídio: por causa das dúvidas traz sempre consigo um frasco de veneno pendurado ao pescoço. Para mim, porém, a ausência de Deus é motivo de regozijo. Eu exulto a minha liberdade. Digo a mim mesmo: "O que haveria para criar se os Deuses existissem?" Percebeu o que quero dizer? A mesma situação, os mesmos dados dos sentidos... mas duas realidades!"
"O tempo não pode ser interrompido. É esse o nosso fardo mais pesado. O nosso maior desafio é viver, a despeito desse fardo."
"...conhece a expressão de Montaigne sobre a morte em que nos aconselha a viver num quarto com vista para um cemitério? Aclara a nossa mente - alega - e mantém as prioridades da vida em perspectiva."
"O paradoxo, o seu paradoxo, é que você se dedica à busca da verdade, mas não consegue suportar a visão da sua descoberta."
"Viva enquanto viver! A morte perde o seu terror quando se morre depois de consumida a própria vida! Caso não se viva no tempo certo, então nunca se conseguirá morrer no momento certo."
"O tiquetaque do seu coração marca o tempo que se esvai. A avidez do tempo é eterna. O tempo devora e devora, sem dar nada em troca. Que terrível ouvi-lo dizer que viveu a vida que lhe foi atribuída! E que terrível encarar a morte sem nunca ter reivindicado a liberdade, mesmo em todo o seu perigo."
"Para se relacionar plenamente com outro, precisa primeiro de se relacionar consigo mesmo. Se não conseguimos abraçar a nossa própria solidão, usaremos simplesmente o outro como um escudo contra o isolamento. Só quando se consegue viver como a águia, sem absolutamente qualquer público, se consegue voltar para outra pessoa com amor; só então se é capaz de preocupar com o engrandecimento do outro ser humano."
Irvin D. Yalom em Quando Nietzsche Chorou
domingo, 21 de julho de 2013
"Devemos sempre optar pela alternativa que toque o nosso coração, escolher o que gostaríamos realmente de fazer, independentemente das consequências."
"A verdade acontece somente aos individuos.
Os percursos conhecidos nunca são trilhados por seres humanos como Sócrates, mas apenas pelas massas, pelas multidões (...)Essas pessoas nunca saem da autoestrada, e mantêm-se juntas porque isso lhes traz uma certa satisfação, um certo consolo... O consolo de não se sentirem sós..."
(...)
O que importa ao leitor é tomar consciência que a verdade sempre veio ao encontro dos individuos, e não os agregados de seres humanos. A verdade não é um fenómeno colectivo que aconteça às multidões. Ela acontece sempre aos individuos, tal como o amor.
No amor intervêm duas pessoas, enquanto que a verdade acontece somente a uma única. A verdade é um acontecimento vivido na mais absoluta solidão. A verdade acontece apenas aos seres rebeldes. Um rebelde, por natureza, vive perigosamente."
"A verdade acontece somente aos individuos.
Os percursos conhecidos nunca são trilhados por seres humanos como Sócrates, mas apenas pelas massas, pelas multidões (...)Essas pessoas nunca saem da autoestrada, e mantêm-se juntas porque isso lhes traz uma certa satisfação, um certo consolo... O consolo de não se sentirem sós..."
(...)
O que importa ao leitor é tomar consciência que a verdade sempre veio ao encontro dos individuos, e não os agregados de seres humanos. A verdade não é um fenómeno colectivo que aconteça às multidões. Ela acontece sempre aos individuos, tal como o amor.
No amor intervêm duas pessoas, enquanto que a verdade acontece somente a uma única. A verdade é um acontecimento vivido na mais absoluta solidão. A verdade acontece apenas aos seres rebeldes. Um rebelde, por natureza, vive perigosamente."
Osho em Viver Perigosamente
quinta-feira, 18 de julho de 2013
The Light That Brings The Dawn
"Night gathers, and now my watch begins. It shall not end until my death. I shall take no wife, hold no lands, father no children. I shall wear no crowns and win no glory. I shall live and die at my post. I am the sword in the darkness. I am the watcher on the walls. I am the fire that burns against the cold, the light that brings the dawn, the horn that wakes the sleepers, the shield that guards the realms of men. I pledge my life and honor to the Night's Watch, for this night and all nights to come."
George R. R. Martin em A Song Of Ice And Fire
George R. R. Martin em A Song Of Ice And Fire
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